LUIS BUÑUEL: 91 Anos de Surrealismo

Logo no seu filme de estréia, Un Chien Andalou, Luis Buñuel chocou o público com cenas como a que mostra um olho sendo cortado por uma navalha. Buñuel criou um novo estilo e sua vida foi uma sucessão de escândalos, e somente após os 50 anos de idade ele foi consagrado mundialmente. Buñuel morreu em julho de 1983, aos 83 anos de idade.

Luis Buñuel nasceu em 22 de fevereiro de 1900 em Calanda, província de Taruel, na Espanha, promogênito de sete irmãos, filho de uma abastada família que a princípio pensou que ele se tornaria emissário de Deus. Durou pouco essa vocação: aos 15 anos, perderia completamente a fé e largaria o colégio dos jesuítas e se tornaria um "ateu graças a Deus", como ele próprio depois se autodefiniria, e a Igreja, juntamente com a burguesia, seria sua principal inimiga durante os anos seguintes de sua longa existência.


Com cerca de oito anos, foi ao cinema pela primeira vez e ficou tão impressionado com as imagens da tela que, assim que pôde, abraçou a Sétima Arte com unhas e dentes, num casamento feliz, embora tumultuado, que duraria até os últimos dias de sua existência. Seu primeiro filme, entretanto, só ficaria pronto em 1928, embora tivesse sido rodado em duas semanas: Un Chien Andalou (foto abaixo), feito de parceria com Salvador Dali (que ele conhecera em 1918 numa república de estudantes em Madri) surgiu de uma conversa entre os dois, em que se relataram os sonhos tidos na véspera. Escrito e roteiro, Buñuel viajou parta Paris e realizou as filmagens. Dali apareceu apenas no último dia das filmagens e pouco tempo depois, uma seleta de surrealistas assistia à première mundial, como complemento a um outro filme de Man Ray. Buñuel, precavido, levou no bolso do casaco algumas pedras para se defender em caso de necessidade, mas não chegou a fazer uso delas.

Fortemente impressionados com as imagens que viam na tela - uma das primeiras cenas do filme mostra um olho sendo cortado por uma navalha - os surrealistas reconheceram no filme do jovem cineasta a transposição perfeita para a Sétima Arte do seu movimento, e gostaram. A crítica nem tanto - as reaões foram as mais iradas possíveis, e muitos consideraram Buñuel um louco - mas Un Chien Andalou virou moda nas conversas de intelectuais nos salons de thé parisienses, e isso só serviu para irritar ainda mais o jovem Luís, que se sentia frustrado: sua intenção mesmo era chocar as pessoas. Isso ele só conseguiu plenamente com seu segundo filme, L'Age d'Or (1930), o primeiro grande escândalo dentre os muitos que o acompanhariam a partir de então.

Lançado em outubro de 1930, durante dois meses L'Age d'Or foi exibido normalmente no Studio 28, em Paris. Mas na noite de 3 de dezembro, um grupo de manifestantes invadiu a sala de projeção jogando bombas de fumaça e começou o maior quebra-quebra, que se estendeu até à exposição paralela de quadros surrealistas no salão contínuo ao cinema. Poucos dias depois, a Censura proibia compĺetamente o filme, e a imprensa atacava com todas as armas o cineasta, que a essa altura já não estava mais nem em Paris: o representante da MGM, que tinha visto o filme, concluiu que Buñuel, apesar da sua proposta estapafúrdia, poderia render alguma coisa para o cinema americano. Assim, ele ganhou de presente um estágio em Hollywood, e a única coisa que teria que fazer seria observar os grandes cineastas trabalhando. Mas durou pouco o estágio: um dia um produtor lhe perguntou qual era a sua opinião sobre um filme com a atriz Lili Damita, falando em espanhol, e a resposta mal humorada de Buñuel - "Não quero ouvir prostitutas" - lhe custou a imediata expulsão de Hollywood.


Buñuel voltou direto para a Espanha, disposto a rodar o seu terceiro filme, Las Hurdes (1932 / foto abaixo), um documentário cruel sobre a região homônima que fica na fronteira entre Portugal e Espanha. Financiado com as 20 mil pesetas que um amigo ganhara na loteria, o filme provocou de tal forma a ira do governo espanhol que isso praticamente significou o fim da carreira do cineasta: uma interrupção que duraria cerca de quinze anos, durante a qual, para sobreviver, Buñuel trabalharia em diversas atividades ligadas ao Cinema - principalmente como produtor - mas sem assinar nenhum filme, no eixo Madri-Paris-Nova York.

Em 1947, após um período de férias no México, Buñuel sentiu que esse país poderia lhe dar enfim a tranquilidade de que tanto necessitava para dirigir sem problemas. No México, nesa primeira fase, realizou nada menos que 14 filmes. O primeiro, Gran Casino (1947) foi um fracasso. Mas o sucesso comercial seguinte, El Gran Calavera (1949) permitiu ao produtor Oscar Dancigers financiar o seguinte, Los Olvidados (1950), o primeiro grande marco na carreira do diretor desde Las Hurdes. Um belo filme sobre a delinquência juvenil nas grandes cidades, arrebatou vários prêmios e tirou finalmente Buñuel do listão dos cineastas malditos. Fez mais do que isso: Los Olvidados marcou também a retomada de um estilo que se faria presente em todos os seus filmes desde então.

Cena do filme: Os Esquecidos (Los Olvidados, 1950).

Agora Buñuel já era um diretor de prestígio, e realizava de dois a três filmes por ano, mas essa fase mexicana foi entremeada por muitos baixos e poucos altos, embora todos tragam a marca registrada buñuelana. A rigor, porém, além de Los Olvidados, podem-se destacar apenas mais duas obras-primas: El (O Alucinado/1953) e Ensayo de un Crimen (1955), além de Robinson Crusoé (1953), adaptação cinematográfica do romance homônimo de Daniel Defoe e também sua primeira experiência com a cor.


Em 1956, Buñuel volta à França, e lá realiza mais dois filmes, Cela s'Apelle L'Aurore e La Morte en Ce Jardin, mas é novamente no México que realizará sua próxima obra-prima: Nazarin (1957), a história de um padre que tenta seguir à risca a bondade pregada pelo Evangelho, e uma preparação natural para o clássico seguinte, Viridiana. Mas, antes disso, realizaria ainda Los Ambiciosos (1959), co-produção franco-mexicana, e The Young One (1960), seu único longa produzido com capital norte-americano.

Viridiana (1961 / foto acima) marca a volt do cineasta à sua pátria, graças a uma anistia que também trouxe de volta vários outros intelectuais espanhóis. De início, houve uma certa liberalidade: a censura franquista liberou o roteiro, fazendo cortes mínimos que não prejudicavam a obra. Mas quando o filme foi exibido, o escândalo foi comparável aos dos primeiros filmes de sua carreira. Cenas como a do banquete dos mendigos, que é uma reprodução fiel da Santa Ceia, tendo um cego no lugar de Cristo, causaram a interdição total do filme na Espanha, a demissão dos censores e uma nova expulsão de Buñuel, que acabou voltando ao México e rodando lá o delicioso El Angel Exterminador (1962), uma narrativa declaradamente surrealista que mostra um grupo de burgueses retidos no salão de uma mansão por uma parede invisível e que vão sucumbindo à fome, à doença e à morte. Desta vez não houve escândalos.


Quase todos os filmes seguintes de Buñuel seriam rodados na França, e com a colaboração do roteirista Jean-Claude Carrière, a quem ele ditaria mais tarde seu livro de memórias Meu Último Suspiro, com excessão de Aimon del Desierto (México, 1965) e Tristana (Espanha, 1970). A carreira do cineasta estava completamente consolidada, e essa sua última fase mostra filmes reconhecidos unanimamente pela crítica e por uma certa parcela do público (de modo geral, os filmes de Buñuel nunca tiveram grandes bilheterias). O mais agressivo talvez tenha sido A Bela da Tarde (Belle de Jour/1967). A história de uma burguesa que sofre de frigidez no relacionamento com o marido e que passa a frequentar um bordel durante as tardes. Os outros são brincadeiras surrealistas em que Buñuel aperfeiçoou ao máximo sua linguagem, como La Voie Lactée (O Estranho Caminho de São Tiago/1968), que é a peregrinação de dois vagabundos até Santiago de Compostela, que encontram pelo caminho personagens históricos e bíblicos sempre envolvidos em situações religiosas ou evangélicas. Buñuel aprendera a ridicularizar seus tradicionais inimigos - a Igreja e a Burguesia de maneira sutil e jocosa. Le Charme Discret de la Burgeoisie (1972) é a história de um grupo de burgueses que jamais consegue concluir uma refeição eternamente interrompido pelas mais diversas circunstâncias, e valeu ao cineasta o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1972. Le Fantôme de la Liberté (1974) é uma estranha inversão de valores, onde cartões postais da cidade de Paris são considerados obscenos e as pessoas se reúnem à mesa para defecar e se recolhem a compartimentos reservados para comer.

O último filme de Buñuel foi feito em 1977: Cest Obscur Objet du Désir é uma relação sadomasoquista entre um casal que nunca consegue fazer amor, principalmente devido às artimanhas da protagonista, vivida simultaneamente por duas atrizes que se revezam em cena.


Buñuel gostava de mostrar em seus filmes situações que jamais chegavam a se realizar, numa eterna frustração desde o início de sua carreria: em L'Age d'Or um casal tenta durante todo o filme manter uma frenética relação sexual que jamais se completa. Em O Anjo Exterminador, os burgueses tentam a todo custo sair de um salão onde houve uma festa, mas são retidos por uma parede invisível. Em Le Charme Discret, é um banquete que jamais se realiza, e em Cet Obscur Objet du Désir o casal protagonista jamais chega às vias de fato. Usando fórmulas simples como essas, Buñuel conseguiu criar uma linha completamente original e pessoal que lhe garantiu um lugar eterno na galeria dos melhores cineastas de todos os tempos.


Fonte de Pesquisa: Revista Cinemin

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